quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Especial Tocantins - Manifestações culturais 2

Festejos de Nossa Senhora do Rosário

A cidade de Monte do Carmo, nascida arraial do Carmo, foi fundada em 1746, em função das minas de ouro, e fica a 89 Km de Palmas. Realiza todos os anos, no mês de julho, os festejos de Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora do Carmo e Divino Espírito Santo. A festividade secular mistura fé e folclore, através de uma série de rituais que reúnem costumes religiosos dos brancos europeus e dos negros africanos, o que transforma a festa em uma atração única, mantida com fidelidade pela população local.

Há informações de que essas manifestações, ainda hoje realizadas em datas específicas, com o passar do tempo foram se juntando e passando a ser comemoradas no período de 7 a 18 de julho. Nossa Senhora do Carmo, padroeira da cidade, celebrada em 16 de julho, trouxe para sua festa as comemorações ao Divino Espírito Santo e Senhora do Rosário. Acredita-se que isso aconteceu devido às dificuldades da população do sertão em ir às festas em datas diversas e da falta de padres para as celebrações. É possível afirmar que essa junção tenha acontecido há pelo menos 80 anos.

CAÇADA

Monte do Carmo possui uma forte influência das culturas portuguesa e africana. Na cidade pode-se vivenciar, a cada ano, sons de bandas de músicas, de tambores, reco-recos, cuícas e tamborins e danças como congos, taieiras e sússia. Um dos pontos altos da festa é a caçada da rainha. Em pleno dia, o cortejo é aberto por tocadores de tambor que vão ditando os passos do público no ritmo da sússia. No meio do povo, os caretas – homens mascarados – divertem os adultos e aterrorizam as crianças. Somente depois surgem os “caçadores” e “caçadeiras”, montados em cerca de 40 cavalos e vestidos especialmente para este momento – mulheres de vestidos longos, em várias tonalidades, homens de preto e branco.

No final do cortejo, o rei e a rainha da festa, também vestidos a caráter, se dirigem para uma área periférica de Monte do Carmo. Ali, quase duas mil pessoas permanecem por mais de duas horas cantando e dançando. A caçada é uma tradição secular. Conta a lenda que esta manifestação surgiu quando a imagem de Nossa Senhora do Rosário começou a desaparecer da igreja misteriosamente, sendo encontrada em seguida na Serra do Carmo. Na terceira vez, os negros foram buscá-la tocando tambores, cantando e dançando, o que encerrou a série de desaparecimentos.

No ritmo dos sertanejos

Do sertão tocantinense surge a genuína cultura do povo. As origens podem ser diversas, mas as motivações quase sempre estão ligadas à devoção religiosa unida ao lazer. Em comum também está o desejo dos moradores das cidades mais antigas do Tocantins de manter vivas tradições como a catira, a sússia e a jiquitaia. É o caso dos Catireiros de Natividade e do Grupo de Jiquitaia de Santa Rosa, que se destacam por passar seus conhecimentos aos jovens.
A origem da catira é encontrada nas tradições indígenas. Estes traços podem ser observados na música, nas coreografias e também no fato de somente os homens participarem do ritual. Em algumas tribos indígenas havia a proibição das mulheres participarem das danças e de entrarem nas casas de flauta, local onde se guardavam máscaras e instrumentos musicais indígenas e que serviam de hospedagem aos convidados de outras tribos nos intercâmbios artísticos.

Repentistas

Os catireiros são músicos repentistas que cantam seus poemas ao som do padeiro, da caixa e da viola. A catira é dançada em círculo formando pares que dançam ao som das mãos e dos pés, num sapateado compassado. É comum entre os grupos que fazem parte dos giros das folias de Reis e do Divino Espírito Santo. Nos momentos de descontração e lazer os foliões cantam seus versos e prosas.
Segundo pesquisadores, os negros que viviam no Estado criaram a sússia, ou suça, como também é conhecida, representando a vida nas senzalas. Os dançarinos apresentam com utensílios que retratam o seu cotidiano. Fazem suas evoluções sustentando garrafas na cabeça ou carregando o quibando, espécie de peneira grossa de palha. Os dançarinos se apresentam aos pares, num semi-círculo onde estão os músicos.

Jiquitaia

Na sússia dança-se a jiquitaia. Supõe-se que as senzalas fossem constantemente invadidas por uma espécie de formiga, conhecida como jiquitaia, e que estas subiam pelo corpo dos escravos provocando um movimento frenético na retirada dos insetos. Esse fato demonstra a imensa capacidade dos negros escravos em transformar a sua situação de dificuldade em danças que os desprendiam do cotidiano.
Os movimentos dessa dança lembram, portanto, a retirada de formigas que invadem os corpos dos dançarinos, num bailado sensual, leve e ao mesmo tempo frenético, uma vez que apenas insinua o toque. A dança é a eterna busca do par.

Romaria do Bonfim

No Tocantins, as romarias do Nosso Senhor do Bonfim acontecem nos municípios de Natividade, no sudeste do Estado, e Araguacema, a sudoeste.
Em Natividade, a romaria remonta ao século XVIII com a formação dos primeiros arraiais. Existem diversas hipóteses a respeito da formação do povoado do Bonfim, para onde seguem os romeiros todos os anos. Alguns acreditam que ele teria se originado de um santuário criado por fiéis ou de um núcleo missionário das irmãs carmelitas ou dos jesuítas.

Os moradores da região afirmam que um vaqueiro teria encontrado nessa área, em local pantanoso, a imagem do Senhor do Bonfim em cima de um toco de madeira. Essa imagem teria sido retirada várias vezes desse local e levada para Natividade, mas desaparecia e reaparecia no mesmo lugar onde foi encontrada. A crença nesses acontecimentos deu início à peregrinação para essa localidade.

Em Natividade, a romaria do Senhor do Bonfim é realizada de 6 a 17 de agosto, no povoado do Bonfim situado a 22 Km da sede do município, onde vivem pouco mais de 100 pessoas. Esse pequeno povoado recebe em média 60 mil fiéis, vindos de várias regiões do Estado e do país.

O ponto alto das comemorações do Bonfim, em Natividade, acontece no dia 15, com a celebração da missa campal, em louvor ao Senhor do Bonfim. No dia 16 em homenagem a Nossa Senhora da Conceição e no dia 17 ocorre a missa dos romeiros. Vários pagadores de promessa atravessam a pé os 22 Km de Natividade ao Bonfim para depositar as suas oferendas aos pés da imagem do santo.

Araguacema

A romaria do Senhor do Bonfim acontece no povoado do Bonfim, distante 40 Km de Araguacema. Atualmente para lá se deslocam cerca de dez mil pessoas. São romeiros das cidades vizinhas e do sul do Pará. O festejo inicia-se com o novenário e termina com a celebração da missa campal, em homenagem ao Nosso Senhor do Bonfim, no dia 15 de agosto.

As homenagens ao Senhor do Bonfim, no município, têm início em 1932, quando para lá chegou, vinda do Maranhão, a família do senhor Arcanjo Francisco Almeida com uma imagem do Bonfim. Seu filho, Natalino Francisco de Almeida, é o atual responsável pela manutenção do templo e pela guarda da imagem que pertence à família desde o século XIX. Segundo Natalino, essa imagem foi encontrada pelo bisavô de sua mãe quando este, junto com a sua família, fugia dos conflitos da Balaiada, ocorrida no Maranhão, entre os anos de 1838 e 1841.

Um dia, após longa caminhada, seu tataravô encontrou na mata uma vertente de água onde havia um oratório feito em pedra. Nele estava depositada uma imagem. Ele levou essa imagem consigo e após o término da Balaiada retornou à sua cidade de origem onde pediu ao padre para “batizá-la”. O padre batizou-a de Jesus do Bonfim e definiu o seu festejo para 15 de agosto. Desde então, a família faz a festa em sua devoção.

Roda de São Gonçalo

Conta a lenda que São Gonçalo reunia em Amarante, Portugal, várias mulheres que durante uma semana dançavam até a exaustão. O objetivo do santo era extenuar as mulheres para que no Domingo, dia do Senhor, elas ficassem em repouso e isentas de pecado. A lenda conta ainda que o santo tocava viola para as mulheres dançarem.

No Brasil, a devoção a São Gonçalo vem desde a época do descobrimento. O seu culto deu origem à dança de São Gonçalo, cuja referência mais antiga data de 1718, quando na Bahia assistiu-se a um festejo com uma dança dentro da igreja. No final, os bailarinos tomaram a imagem do santo e dançaram com ela, sucedendo-se os devotos. Essa dança foi proibida logo em seguida pelo Conde de Sabugosa, por associa-lá às festas que se costumavam fazer pelas ruas em dia de São Gonçalo, com homens brancos, mulheres, meninos e negros com violas, pandeiros e adufes dando vivas a São Gonçalo.

São Gonçalo tem, para os seus devotos, a tradição de santo casamenteiro. Inicialmente, a dança tinha um caráter erótico, que com o tempo foi desaparecendo, permanecendo apenas o aspecto religioso.

Em Arraias, no sul do Estado, a dança de São Gonçalo é chamada de roda, e sempre é dançada em pagamento a uma promessa por mulheres em pares, vestidas de branco, com fitas vermelhas colocadas do ombro direito até a cintura. Nas mãos carregam arcos de madeira, enfeitados com flores de papel e iluminados com pavios feitos de cera de abelha. Também participam do ritual dois homens vestidos de branco com fitas vermelhas traspassadas. Os homens tocam viola e tem a função de acompanhar as dançarinas para que estas não se percam nas evoluções da dança.

Os violeiros entoam versos em louvor a São Gonçalo, que fica colocado num altar preparado exclusivamente para a festa, em frente ao qual se faz as evoluções da roda. Acompanha, ainda, a roda de São Gonçalo, um cruzeiro todo iluminado, colocado próximo ao altar.

Nenhum comentário: